Tá Vendo???

Por Marisa Oliveira

Dia desses, enquanto esperava pelo término da seção de fisioterapia do meu pai, quando ele ainda estava vivendo neste plano, resolvi comprar umas cocadas para a minha mãe, numa barraquinha de doces famosa na cidade de Campinas.

Conforme fui me aproximando, pude ouvir o término da conversa que rolava entre uma senhora corpulenta e baixinha, que, na hora, me pareceu ser a proprietária da barraca, e um homem, também de meia idade, que falava de forma exaltada e gesticulava muito. Ele contava algo, que não pude saber o que era, mas que lhe despertava muita indignação.

Enquanto eu esperava para ser atendida, a senhora, muito atenta, e parada, declarou, por várias vezes:
- Tá vendo? Não se pode confiar mais em ninguém hoje em dia!

Ela repetiu isso uma, duas, três vezes. Olhou firmemente para mim, que tinha acabado de chegar e nem poderia saber do que se tratava, e mandou mais uma quarta vez:
- Tá vendo? Não se pode confiar mais em ninguém hoje em dia!

A esta altura, o senhor de aspecto carrancudo, mas agora parecendo feliz por ter encontrado alguém que pensava como ele, concordou plenamente. Pagou, satisfeito, a sua cocada, virou as costas e saiu resmungando:
- Não! Não se pode!

Durante os instantes que se seguiram ao meu pedido, muitas coisas passavam pela minha cabeça. Minhas emoções tornaram-se turbulentas. Eu não conseguia entender o que tinha me incomodado tanto naquele breve diálogo que, distraidamente, ouvi. Fiquei olhando e olhando para aquela panela, onde foi sendo colocado, primeiro, o coco branquinho, depois o açúcar e, por último, um cravo da Índia. Enquanto ela misturava todos os ingredientes, como que preparando uma poção alquímica, aquelas palavras continuavam ecoando em minha mente:

- Tá vendo? Não se pode confiar... Foi crescendo dentro de mim uma vontade de protestar, discordar, sair dali o mais rápido possível.
- Tá vendo? Não se pode confiar... Que idéia mais imbecil a minha, comprar cocadas!
- Tá vendo? Não se pode confiar mais em ninguém hoje em dia! Cocadas engordam e, depois, nem sei se minha mãe gosta de cocadas!!!!

Então, chegou a minha vez. O tempo pareceu parar, tudo ficou em câmera lenta. Aquela mulher olhou pra mim, como anteriormente fizera também com o Sr. Carrancudo, e me estendeu o maldito saquinho com cocadas. Confesso que fiquei paralisada.

Quando, finalmente, consegui me mexer e estiquei o braço para pegar o saquinho, nossas mãos se tocaram, ao mesmo tempo em que meu olhar se fixou no dela. Então, para minha própria surpresa, me ouvi perguntando:
- A senhora pode confiar em mim?

Sem entender direito o que se passava, ela respondeu, algo confusa:
- É claro, minha filha!
- Então, existem, SIM, pessoas em quem podemos confiar! – declarei triunfante.

Respirei aliviada, paguei pelos doces e fui embora, não sem antes ouvir:
- Esse mundo tá cheio de malucos...

Em minhas palestras e cursos, gosto de contar esse episódio. Fico satisfeita em perceber que não aceitei fazer parte da "humanidade não confiável". Nessas ocasiões, convido as pessoas a resgatarem os seus valores mais profundos.

Convido você, caro leitor, neste momento, a fazer o mesmo. Questione-se: - Quais são os seus valores essenciais? Quais são, para você, os mais importantes, aqueles sem os quais não seria possível continuar a ser você mesmo? O que verdadeiramente significam, para você: honra, respeito, família, lealdade, amizade, confiança? Quais são os princípios que norteiam e dão direção à sua vida? O quanto conseguimos de coerência entre o que discursamos e o que efetivamente fazemos com nós mesmos e com os outros?

É interessante perceber que, quando concordamos com alguém ou com nós mesmos, quando declaramos algo sobre "todo mundo", "todas as pessoas" ou "a humanidade", na maioria das vezes esquecemos de nos incluir. Esquecemos que também somos responsáveis pelos resultados e que fazemos parte desse grupo de humanos.

Ainda convido você a se indignar diante da estagnação, do retrocesso, da involução.

E, por fim, se você o for, mesmo que o chamem de maluco, não tenha medo e declare em alto e bom tom:
- Eu sou confiável! - depois se sente e coma uma cocada...

Marisa Oliveira é terapeuta transpessoal. Ministra palestras e cursos na área de Desenvolvimento Pessoal. É presidente e fundadora da empresa Origens Desenvolvimento Pessoal- www.aorigens.com.br