Perdoar? Fala Sério!

Por Marisa Oliveira

Às vezes, me pergunto sobre o que realmente é o perdão. Crescemos ouvindo sobre a necessidade, ou melhor, imposição de que, se formos magoados, feridos, temos de perdoar sempre, incondicionalmente. Dizem os nossos pais, professores e as religiões: perdoe!

Parece simples: olhe para aquela pessoa tão querida, singela e especial que te "ferrou" e, em um passe de mágica, perdoe, e tudo ficará bem. Lindo!

Engraçado, vou escrevendo essas linhas e percebo que o condicionamento me traz à mente a imagem, por associação, de um dos maiores exemplos que a humanidade já teve sobre o tão sublime assunto: Jesus. No último final de semana, enquanto tomava um café com um amigo, ele me contava o quanto ficou impressionado, assistindo ao filme "A Paixão de Cristo" (Mel Gibson), na cena em que Maria pega o corpo de Jesus em seus braços e revela, através do seu olhar, a imensa dor de uma mãe ao ver seu filho torturado e morto. Ele ainda me disse que naquele momento sentiu como se Maria, no auge de sua dor, nos questionasse - Como vocês foram capazes? - Me pergunto se eles, Jesus e Maria, nos perdoaram? Será? Confesso que, me senti ridícula ao pensar nisso. Me parece que o perdão não tem nada a ver com isso, diante da grandiosidade de toda a história e ensinamentos.

Guardando as devidas proporções - afinal, hoje em dia, não está mais na moda crucificações - observo que ainda seguimos torturando e, muitas vezes, matando dentro de nossos corações, pessoas importantes em nossas vidas, através do descaso e do desrespeito, que muitas vezes praticamos com os sentimentos dos nossos pais, avós, irmãos, filhos, amigos, amores, etc.

Talvez, possamos traçar um paralelo entre cada espinho colocado na cabeça de Jesus, cada martelada dada para pregar suas mãos e pés, cada chicotada desferida, com o desrespeito e desamor que praticamos uns com os outros no nosso dia-a-dia. Somos responsáveis pelo que causamos em nós mesmos e também nas outras pessoas. Somos responsáveis pelo exemplo do que somos, aceite isso ou não, através das suas atitudes. Somos responsáveis pelo que semeamos à nossa volta.

Voltando ao perdão, procurei o significado dessa palavra, etimologicamente. Perdão vem de perdonare: per-donare. Quer dizer: doar com plenitude. Então me perguntei: Mas, doar o quê? As minhas desculpas? Des-culpa (tirar a culpa de alguém). Oras, então estou culpando, estou julgando!

Quem sou eu para julgar? Ai..., Jesus! Socorro! Como faço para passar um "apagador psicológico" e esquecer? Como é possível? Como simplesmente esquecer as dores, mágoas que me causaram ou que, eu mesmo, muitas vezes causo nos outros?

Penso que, talvez o primeiro passo para que possamos "doar com plenitude" seja realizarmos antes, dentro de nós mesmos, o respeito. Respeito pelos sentimentos alheios, pelas histórias vividas. Respeito por aquilo que acreditamos e escolhemos. Sem enganar, sem mentir, sem querer se aproveitar, sem querer tirar vantagens.

Se pudermos, realmente, "amar uns aos outros como à nós mesmos", então, não haverá mais a necessidade de perdoarmos ninguém.

Marisa Oliveira é terapeuta transpessoal. Ministra palestras e cursos na área de Desenvolvimento Pessoal. É presidente e fundadora da empresa Origens Desenvolvimento Pessoal- www.aorigens.com.br